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08/05/2022 08h23 Há 712 dias
Na Disparada da Vida

    A paixão pela música sempre foi muito presente em mim e durante vários anos me acompanhou profissionalmente. À época de universitária, promovia os bons nomes do momento: Toquinho & Vinícius, Elba Ramalho, Elis Regina, Quarteto em Cy, MPB4, Ivan Lins e tantos outros aos quais Piracicaba acolhia com avidez e muito burburinho. Quando fui para São Paulo, continuei, entre outras atividades, na promoção de shows pelo interior do Estado.

    Mas o que quero deixar aqui é uma experiência vivida com um ícone da música brasileira, o eterno “cachorrão” Jair Rodrigues, durante a Virada Cultural Paulista. Aliás, o propósito deste artigo hoje, 8 de maio, é marcar os oito anos da partida deste intérprete da MPB.

    O Artista - Jair Rodrigues de Oliveira, nascido em Igarapava/SP em 1939, esbanjava tanta alegria que é lembrado como o sorriso mais contagiante da MPB. É considerado o primeiro rapper brasileiro, pelo lançamento de Deixa isso pra lá, nos idos de 1960, com uma letra mais falada que cantada, levada com muita malemolência e acompanhada da inconfundível dancinha das mãos.

    Mas sua história musical não começa aí. Quando jovem, no interior de São Paulo, foi engraxate, mecânico e pedreiro até se classificar em primeiro lugar num programa de calouros, na Rádio Cultura da cidade de Nova Europa. Corria a década de 1950 e ele se tornou crooner de uma banda.

    No início dos anos de 1960, partiu para Capital paulista. Era aplaudido nas boates e nos programas de calouros da televisão. Em 1964, lançou seu primeiro LP, O samba como ele é, com O morro não tem vez, de Tom Jobim e Vinícius de     Moraes com relativa aceitação. Foi no segundo álbum, Vou de Samba com Você, que se consagrou ao trazer Deixa Isso Pra Lá, de Alberto Paz e Edson Menezes.

    Em 1965, Jair conhece Elis Regina. Ele vindo do sucesso do segundo disco e ela vencedora de Festival com Arrastão, logo formam uma dupla competente na condução do programa da Tv Record, O Fino da Bossa, um dos mais aplaudidos da história da música brasileira.

    Com o êxito na televisão vieram os discos. Jair e Elis colecionaram sucessos nos três volumes de Dois na Bossa. Gravando Vinícius de Moraes, trazem de volta O Morro Não Tem Vez e Arrastão, lançam Samba do Carioca e A Felicidade.     Depois, de Marcos e Paulo Sérgio Valle, Preciso Aprender a Ser Só e Terra de Ninguém. Esses, entre outros tantos trabalhos, são referências na música popular.

    Em 1966, Jair venceu o II Festival da Música Popular Brasileira, com a canção que se tornaria um hino: Disparada, de Geraldo Vandré e Théo de Barros. Nesse Festival acontece uma situação inusitada. O júri consagrou como vencedora A Banda, de Chico Buarque, no entanto, Chico se recusou a aceitar o prêmio por considerar Disparada mais merecedora. Resultado, empate. E Chico tinha razão. Conhecido por cantar sambas, Jair surpreendeu com uma poderosa interpretação da canção que trazia um tema politizado, em pleno regime militar. A partir daí, sua carreira teve uma ascensão meteórica e o reconhecimento do seu talento assegurou décadas de sucesso.

    Dentre suas muitas gravações estão o samba-enredo Festa para um Rei Negro, da Acadêmicos do Salgueiro e ainda sucessos sertanejos como O Menino da PorteiraBoi da Cara Preta e a sensível interpretação, com Chitãozinho & Xororó, de A Majestade o Sabiá, composta por Roberta Miranda.

    O Encontro - Feita a contextualização, um salto no tempo nos leva para maio de 2013. Como diretora do Parque Engenho Central, em Piracicaba, recebi a programação das 90 atrações da Virada Cultural Paulista. Fiquei extremamente feliz ao saber que receberíamos o “cachorrão” para o show do domingo à tarde. 

    E chegou o dia! A mega estrutura montada para receber até 20 mil pessoas por espetáculo, contava com dois palcos, camarins, sala VIP, instalações e equipamentos para atender ao evento que atraia toda região.

    Logo após o almoço, uma camionete estaciona ao lado da sala VIP e dela salta, de terno branco com um sobretudo preto, o sorridente Jair Rodrigues. Cumprimentando, brincando, fazendo piada, causando um gostoso alvoroço com a imprensa e autoridades que o esperavam.

    Pontualmente, às 15 horas, ele sobe ao palco para alegria da multidão. A partir daí, só se fez confirmar tudo que já havia ouvido: cantor versátil, habilidoso, era o capeta no palco, pulava, brincava, plantava bananeira. Não havia quem não     se admirasse com sua agilidade e leveza aos setenta e poucos anos.

E foi nesse clima moleque que Jair nos deixou com o coração na mão ao pular de cima do palco com 2 metros de altura para o chão e sair cantando no meio do público, sem aparato algum. Nesse momento, nós, acostumados com os artistas, sentimos sua real envergadura. Estávamos diante de um homem que com décadas de uma carreira muito bem-sucedida, acostumado à fama, continuava humilde, devolvendo ao público o carinho e o respeito com que sempre era recebido.

    Sua autenticidade se tornava patente. Por onde passava caminhando, cantando, era acompanhado pela multidão. Ele tocava as mãos dos fãs, retribuía abraços, beijos e continuava cantando. Só nos acalmamos quando voltou ao palco.

    Em meio a apresentação, nos primeiros acordes de Disparada, emoção geral.  Prepare seu coração, pras coisas que eu vou contar...’ era, segundo ele, canção obrigatória nos 50 anos de carreira, fez com que, mais uma vez, refletíssemos que ‘na boiada já fui boi...’, mas que vencendo desafios, chegaríamos ao ‘agora sou cavaleiro, laço firme e braço forte...’! 

    A Partida - 

Um ano depois destas emoções, em 8 de maio de 2014, o coração que sempre conduziu Jair Rodrigues também o levou ‘pra cantar noutro lugar’. Ele deixou um legado de alegria, criatividade e sabedoria musical. Uma marca indelével na música brasileira ao transmitir, com voz potente, todos os sentimentos exigidos por cada interpretação. Deixou também um exemplo de humildade, alegria, integridade e amor. Sobre o amor à profissão, uma situação merece destaque. Ao ser perguntado por um jornalista o que ele seria se não fosse cantor, respondeu: “estaria tentando ser cantor”. E na disparada da vida, ele veio, se consagrou e se foi



Fotos: Guia Turístico Piracicaba - Virada Cultural Paulista 2013 - Rodrigo Alves

Autoria: Fátima Silva Fonte: Conexão Piracicaba