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13/05/2022 07h00 Há 702 dias
O que há de africano em nós

    ... negros não são descendentes de escravos, como dizem os livros escolares. São descendentes de civilizações africanas, de reinados fortes e poderosos. São descendentes de reis, rainhas, príncipes e princesas. São parentes de homens e mulheres que desenvolveram a escrita, a astrologia, as ciências e as pirâmides. São fruto de um povo que desenvolveu as técnicas agrícolas e que domina a medicina alternativa. São fruto de um povo que conhece as folhas e como despertar o poder delas”. Ricardo de Andrade (Arqueologia e História das Religiões)


    Dessa riqueza tão bem colocada pelo escritor Ricardo de Andrade, após infelizes quatro séculos de escravidão, o povo brasileiro se forma com a indelével presença afro. 

    A cultura africana chegou nos corpos, nas mentes e nos corações dos que eram trazidos daquele continente. Eram bantos, nagôs e jejes com suas crenças e costumes. Eram hauçás e malês de origem islâmica, que falavam árabe.

    Cada etnia trazia suas próprias raízes, duramente reprimidas pelos colonizadores. Os escravos eram obrigados a aprender português, a aceitar o catolicismo e outros nomes ao serem batizados.

    Àquela época, aqui já estavam os índios e os europeus. A chegada da terceira vertente étnica trouxe novos ingredientes para nossa formação miscigenada. 

    Com dificuldade, os escravizados lutavam para manter seus valores e tradições. Se reuniam nas senzalas e nos terreiros para celebrações religiosas, festas e comemorações. 

    Resistindo na manutenção de seus costumes, eles incorporaram práticas europeias e indígenas, e os influenciaram no sentido inverso. O resultado dessa amálgama é a formação do povo brasileiro com toda sua carga de identidade e pertencimento.

    A contribuição da diáspora africana para a cultura brasileira se faz presente, principalmente, na dança, música, religião, culinária e idioma. São percebidas mais fortemente na Bahia, Maranhão, Pernambuco, Alagoas, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul. 

    Traços físicos e marcas genéticas, a alegria e o uso de cores vibrantes revelam a presença africana no próprio jeito de ser do povo brasileiro.

    

    O CULTO SAGRADO - Com os negros trazidos entre os séculos XVI e XIX, veio o candomblé. Em seus rituais, elementos da natureza são representados por divindades, o panteão dos Orixás Xangô, Oxum, Ogum, Iansã e Iemanjá e outros. 

    A prática considerada bruxaria pelos senhores, foi muito perseguida. Usando de criatividade, eles passaram a associar orixás e santos católicos, num perfeito sincretismo. 

    As cerimônias do candomblé acontecem hoje, em terreiros. Quem as dirige é uma mãe ou pai-de-santo. Cada Orixá se apresenta com suas peculiaridades e recebe as comidas de sua preferência.

    A umbanda, vertente da religiosidade africana, surge no Brasil em 1908, pelo médium Zélio Fernandino de Moraes (1891–1975). Ela mescla aspectos do candomblé, do kardecismo e do catolicismo. O registro de suas primeiras manifestações se dá nos anos de 1920. 

    Como no candomblé, na umbanda os Orixás são o centro dos rituais. Os médiuns recebem os guias espirituais e fazem a comunicação com os consulentes. Destas entidades espirituais as mais populares são os pretos-velhos, os caboclos e as pomba giras.

    Em 2016, a umbanda foi reconhecida como patrimônio imaterial do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade.

    VAMOS CANTAR E DANÇAR - O berço da música brasileira está na África. Conta-se que o samba saiu dos rituais religiosos africanos. Os batuques eram e continuam sendo elementos de ligação com as divindades. Da sua mistura com     outros ritmos surgiram as primeiras rodas de samba. Dos tempos coloniais chega o lundu, origem do maxixe, do choro e da bossa-nova. 

    O samba que representa o Brasil no mundo, se destaca no Rio de Janeiro no início do século XX, junto da comunidade baiana que para lá se mudara. Pelo telefone, de Donga e Mauro de Almeida, é o primeiro samba gravado, em 1917.     Poucos anos depois, popularizou-se pelas ondas do rádio, com Ary Barroso, Noel Rosa, Carmem Miranda, Pixinguinha, Cartola e tantos outros. Dele derivaram o samba-canção, o samba-de-breque, o samba-enredo e, até mesmo, a bossa nova. O samba é a base da MPB.

    Esta legítima expressão das comunidades afro das periferias do Rio, sempre esteve ligada ao carnaval. A pioneira das escolas de samba foi Deixa falar, fundada em 1928 por Ismael Silva, Bide, Armando Marçal, Mano Elói, Mano Rubens e outros sambistas. Durou apenas cinco anos.

    O primeiro desfile oficial aconteceu em 1935, tendo a Portela como vencedora. Hoje, os festejos carnavalescos se ampliaram, acontecem e atraem milhares de turistas do mundo todo.

    É preciso lembrar, ainda, dos instrumentos musicais presentes na maioria dos ritmos nacionais: berimbau, afoxé, tambor, atabaque, cuíca, marimba e agogô, todos de origem africana.

    O berimbau merece destaque por ser usado para marcar o ritmo da capoeira. Uma mistura de dança e arte marcial criada para defesa, transformou-se em atividade esportiva que se torna cada vez mais popular.

    UMA MESA DE SABORES – Quem nunca se encantou e quis provar as delícias dos tabuleiros das baianas? 

    A Bahia é um dos estados onde a marca da culinária afro é muito acentuada. Lá nasceram os dendezeiros, espécie de palmeira africana de onde se extrai o azeite-de-dendê usado no vatapá, caruru, mungunzá, bobó, efó, acarajé e outros pratos. 

    Importante destacar que o acarajé, à época do Ministro da Cultura Gilberto Gil, foi reconhecido como patrimônio nacional pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

    A região nordeste mostra, ainda, outras destas facetas negras com as preparações de carne-de-sol e carne-seca, feijão-de-corda, arroz-de-cuxá, frigideiras de peixe, sempre bem acompanhadas de farinha de mandioca. O uso de leite de coco e pimenta também são marcas registradas da culinária africana. 

    E aquela delícia conhecida como feijoada carioca, também é herança dos escravos e considerada uma representante da culinária brasileira. Pratos à base de farinha, canjica, cocada, mingau e quibebe são mais alguns destes legados.

    São receitas criadas pelas escravas, cozinheiras das casas grandes, misturando ingredientes indígenas e europeus ao sabor africano. Aliado ao trabalho delas na difusão das iguarias, está a ligação da comida com o candomblé, onde cada orixá tem seu prato favorito. 

    COMO É QUE SE FALA? - Porque o português do Brasil é diferente do de Portugal? Linguistas afirmam que uma das diferenças está na participação das línguas africanas.

    Milhões de escravos vieram da atual região de Angola, Congo e Moçambique. Falavam línguas de origem banto. 

    Da mistura com indígenas e europeus vieram: abadá, axé, bunda, caçamba, cachaça, cachimbo, caçula, cafuné, corcunda, cuíca, dengo, fubá, macumba, marimbondo, miçanga, moleque, muvuca, quindim, quilombo, quitanda, saravá, sunga, xingar e um sem número de outras palavras e expressões incorporadas ao nosso vocabulário.  

    O (RE) CONHECIMENTO -  Depois de 134 anos da assinatura da Lei Áurea, os negros no Brasil são mais de 50% da população. No entanto, sempre foram pouco considerados. O racismo estrutural é muito presente na nossa sociedade.     Negros compõem a maioria dos moradores das favelas e das periferias, ainda têm seus direitos civis relegados e se mantém em constante luta.

    Nas últimas décadas, aconteceram algumas decisões assertivas no sentido de reconhecer a importância e a participação dos povos negros na sociedade brasileira.

  •     1998 - Racismo é Crime
  •     2003 - 20 de novembro, Dia da Consciência Negra
  •     2010 - Lei da Igualdade Racial e
  •     2012 – Lei de Cotas

    Em 17 de agosto de 2021, a prefeitura de São Paulo anunciou a construção e instalação de novas estátuas em reverência a cinco personalidades negras ligadas à cidade. Carolina Maria de Jesus escritora de Quarto de Despejo, sambista Geraldo Filme, Ademar Ferreira da Silva pentacampeão olímpico, ativista e carnavalesca Madrinha Eunice e Itamar Assunção cantor, compositor e instrumentista, serão homenageados.

Fatos mais recentes como a morte de George Floyd nos Estados Unidos, de João Alberto Silveira Freitas, em Porto Alegre/RS e outros episódios envolvendo afrodescendentes, têm chamado ainda mais atenção para as questões raciais. Nesse contexto, a tecnologia tem sido uma grande aliada no sentido de registrar e exibir momentos de injustiça social e desrespeito, provocando as necessárias reações da sociedade e das autoridades.

Com tudo isso e apesar de tudo, a alegria e a resiliência peculiares aos descendentes da realeza e da sabedoria africana, se mantem fortes e em pé 

Salve a negritude!

    FONTES    jornal.usp.br / exame.com / agenciabrasil.ebc.com.br / portal.iphan.gov.br /educamaisbrasil.com.br / faecpr.edu.br / genera.com.br / sabra.org.br / coladaweb.com

   Fotos: https://stock.adobe.com/br/search/free?k=africanos&search_type=usertyped

Autoria: Conexão Piracicaba Fonte: